17 julho 2009

O cultivo da laranja mecânica

Compatilhando. Uma trabalho da faculdade

Introdução

O artigo tem como pretensão fazer uma breve análise de âmbito cultural do filme “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange – 1971), baseado no livro homônimo de Anthony Burgess, e levado às telas pelo afamado diretor estadunidense Stanley Kubrick. A tarefa conterá comentários pessoais sobre a obra e em seguida ligações com pensamentos de alguns especialistas no assunto cultura midiática. A apreciação se dará seguindo três motes principais: o objeto na conceituação clássica de cultura, como produto cultural, e a maneira como a mídia tratou o filme na época do seu lançamento e como ela aborda, o mesmo, no tempo presente.

Sinopse

O enredo é ambientado em uma Inglaterra futurística não datada, e retrata o cotidiano transgressor de uma gangue de quatro jovens que saem para as ruas sujas e inóspitas da cidade para praticar desordens e “ultraviolencia”. Batem nos mendigos, estupram garotas, saqueiam casas e brigam com outros grupos da mesma índole. A história é narrada em primeira pessoa por Alex DeLarge (Malcolm McDowell), jovem evasivo de classe média alta e fã da música de Beethoven. É o protagonista principal do filme e líder do bando de malfeitores. A situação se inverte quando em mais uma de suas “visitas noturnas” em uma casa de uma senhora, Alex comete assassinato e logo após cai em uma cilada que o leva à prisão com detenção de 14 anos. Porém, é escolhido para ser cobaia de uma nova técnica do governo de reabilitação de apenados: o método Ludovico. Alex, então, é exposto a uma lavagem cerebral que consiste em sessões diárias de cenas de violência explicita. Justamente tudo que ele cometia. Agora, Alex corre o risco de sofrer e não ser mais capaz de cometer os delitos que sempre o deixaram alegre e satisfeito.

Impressões sobre o filme

Quem se interessa pela sétima arte sabe que Laranja Mecânica é uma referência mundial quando se fala de filmes subversivos, de imenso impacto emocional. Para muitos críticos e cinéfilos por hobby é visto como o primeiro dessa lista. Não é possível, então, pensar em cinema e não mencionar Laranja Mecânica. Está no seleto grupo dos ditos “clássicos” (aquela produção que fica imortalizada na história, que será sempre lembrada). Ganhador dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção da Associação de Críticos de Nova York, e nomeado a quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Porque, afinal, o longa em questão possui tal mérito?

Costumo dizer que Laranja Mecânica é um filme multifacetado. Por trazer à tona diversas críticas à sociedade, é possível analisá-lo em diferentes enfoques. Em sua trama, versa de maneira verossímil sobre alguns temas, como: a delinqüência juvenil, o maniqueísmo político, a redenção através de arrependimento. Além desse fator, e principalmente, é porque creio que é totalmente original na forma de sua apresentação, não há nenhuma referencia de outras produções. Talvez seja por esses fatores que o torna extremamente formidável e chocante ao mesmo tempo.

Os personagens com um figurino peculiar, o cenário futurista, a fotografia extremamente limpa (típico do diretor Stanley Kubrick), a violência estilizada, todas essas categorias são pensadas criteriosamente com o intuito de hipnotizar o espectador; marcá-lo imageticamente no inconsciente. O uso de Beethoven na trilha sonora colabora com as cenas e situações. Parece que se encaixa simetricamente às imagens reproduzidas. Depois de olhar a sequencia de Alex estuprando a moça em frente ao seu marido cantando “I Singing In The Rain” de Gene Kelly, dificilmente você escutará essa música posteriormente e não se lembrará da cena.

O ponto fundamental do longa-metragem é o conflito entre o livre arbítrio do individuo e o controle do Estado nas imposições morais. O risco de o Estado adotar a violência como forma de dominação. Todo o filme discorre sobre esse cerne.
Kubrick mostra exatamente que quando a lei e a ordem desse método governamental falham acarreta na ascensão de grupos organizados, no caso Alex e seus “druges” (amigo, no dialeto Nadsat, amálgama de russo com inglês que Anthony Burgess inventou em seu livro).

Efeitos sociais e a representação da mídia no período

Na época não se acreditava que um filme desse tipo conseguiria uma produtora e menos ainda, que iria se safar da censura cinematográfica. Para a sorte dos envolvidos os anos 70 foi o período mais flexível na reprimenda de filmes na Grã-Bretanha. E ele saiu e foi o maior tremor social. As pessoas se chocaram com aquelas imagens violentas com visíveis traços surrealistas. A polêmica tomou conta do país. Foi tratado como perigoso. Os jovens, de certa forma, viram nele uma desculpa para se redimir de crimes e pedir diminuição de pena. Laranja Mecânica então ganhou o estigma de ilícito, ilegal.

A mídia, por sua vez, de informar e formar opinião deu maior ênfase ao assunto e uma série de noticias de crimes foi associada ao filme. As acusações de apologia à violência eram feitas. O fardo foi tão expressivo que Stanley Kubrick sofreu ameaças e acabou não agüentando ser responsabilizado por crimes e então tirou a obra de circulação dois anos depois de sua estreia. Durante 25 anos o filme não foi reproduzido na Inglaterra. No Brasil ele foi proibido na época que foi lançado, sendo liberado poucos anos depois, com a condição que a parte íntima da mulher no estupro fosse encoberta com uma barra preta.

O “produto cultural” Laranja Mecânica

Anthony Burgess fez uma forma de estudo cultural ao apresentar a realidade do meio onde passa a história. Assim como a Workers Educational Association (WEA) na década de 50, que teve como professores, Richard Hoggart, Thompson e Raymond Williams, precursores dos estudos culturais; que discutiam com seus alunos trabalhadores temas que tinham relação com a vida destes, Anthony Burgess usou da interdisciplinaridade (característica da WEA) ao mostrar criticamente as questões de seu livro. Filmado depois por Stanley Kubrick. Portanto, Laranja Mecânica já nasceu como um produto cultural que iria vingar e chegar à maioria da população inglesa e com o sucesso conquistado, consequentemente demoraria pouco para chegar à escala mundial.
Levando em consideração o antropólogo americano Gordon Matthews apud Nicole Reis dos Santos:

(...) o conceito "clássico" de cultura como "o modo de vida de um povo" e o conceito mais contemporâneo, que trata cultura como "as informações e identidades disponíveis no supermercado cultural global". (...) a oposição fundamental entre esses dois conceitos seria de que o primeiro coloca cultura como formada pelo Estado, e o segundo, como formada pelo mercado.
(REIS, Nicole I. dos. Resenha de "Cultura Global e Identidade Individual", de Gordon Matthews. 2003)


Tanto a obra literária como o filme retratam uma cultura inglesa imposta pelo Estado: o uso da prática pífia da brutalidade (lavagem cerebral) para amenizar a violência nas ruas, e o aproveitamento de políticos da situação do protagonista para fins de argumentos de oposição eleitoral. Desse modo, é a maneira de vida do povo mostrado por uma cultura estética, ou seja, o filme em questão; sendo este, um produto mercadológico.

A singularidade de Alex escutar somente Ludwig Van Beethoven, e ele tendo isso como a única música de valor; pode-se concluir que ele considera aquilo como uma cultura elitista, para poucos, já que está inserido nessa nata social. Então, se vê um aspecto cultural dentro do produto cultural, quer dizer, uma metalinguagem.

O fato de a produção ter sido feita com o orçamento de US$ 2 milhões, valor extremamente baixo se formos comparar com as grandes produções hollywoodianas, corrobora com a defesa de Douglas Kellner de que não é necessário um investimento muito alto, nem mesmo um significativo patrocínio do Estado para um produto ser considerado referencia de manifestação cultural. Não é o caso de Laranja Mecânica, mas reforça a ideia da importância de dar atenção aos produtos independentes.

O filme mais célebre de Stanley Kubrick virou uma febre mundial. Três anos após a sua feitura, na Copa do Mundo de 1974 a seleção holandesa de futebol foi batizada de “laranja mecânica”, pelo seu estilo tático inovador; alusão ao filme. Profetizou o movimento Punk, do qual se alimentou com a atitude anárquica e violenta da classe operária, concebida pela película. Atualmente, é o filme preferido de muitos adolescentes, camisetas com estampas de Alex são sempre confeccionadas, obras de todos os gêneros são baseadas no filme e a mídia hoje o eterniza como Cult.

Conclusão

A qualidade em todos os quesitos que envolvem uma produção cinematográfica e o seu teor contestador tornou Laranja Mecânica uma obra-prima indiscutível. O abalo que gerou, não só na população inglesa, mas em todo o planeta dá acesso a ser estimado como um “produto cultural” de grande autoridade na história do cinema. E destaca, acima de tudo, o poder de representação e transformação que uma manifestação cultural é capaz de perpetrar na sociedade. Por tal razão, que se vê a importância que contem o estudo analítico de um invento de comunicação midiática.

Referências

LARANJA MECÂNICA. Roteiro, produção e direção de Stanley Kubrick. São Paulo: Warner Bros. Entertainment Inc, 2007. (136 min.): DVD, NTSC, son., color. Legendado. Port.


O TEMPO NÃO PÁRA: O RETORNO DE LARANJA MECÂNICA. Produção e direção de Paul Joyce. São Paulo: Warner Bros. Entertainment Inc, 2007. (44 min.): DVD, NTSC, son., color. Legendado. Port.


A FORMAÇÂO DOS ESTUDOS CULTURAIS. In: CEVASCO, M. E. B. P. S. . Dez Lições de Estudos Culturais. 1. ed. Sao Paulo: Boitempo, 2003. v. 01. 188 p.


REIS, Nicole I. dos . Resenha de "Cultura Global e Identidade Individual", de Gordon Matthews. 2003 (Resenha).
Disponível em < pid="S0104-71832003000200016&script=" tlng="pt"> Acessado em 8 de Julho de 2009

Um comentário:

nereuviegasfilho disse...

Parabéns Pela qualidade do artigo e pela esclarecedora ideologia postada